Olá! muito prazer em ver você aqui! Bom além de descobrir um pouco de mim, você vai descobrir a minha guerra. Então vamos lá!
Meu nome é Gabriel, tenho 20, moro em São Paulo e vivo com surdez a cerca de 1 ano e meio. Você deve se perguntar como que alguém fica surdo de uma hora pra outra? Vamos começar do começo. No dia 22/02/2017, eu acordei as 7 da manhã para encarar o longo dia de um universitário que trabalha e estuda. Porém quando me dei conta, (dando a descarga da privada) eu não estava escutando o barulho da água, entrei em desespero, só que algumas horas depois melhorou, então eu acabei não dando atenção para isso. No dia seguinte, aconteceu a mesma coisa, porém dessa vez fui a emergência e o médico suspeitou de uma inflamação, fui medicado e voltei para a casa. Passaram-se horas e nada de surtir efeito, então procurei um otorrinolaringologista, fiz uma audiometria e fui diagnosticado com surdez súbita. Fui medicado com 6 remédios diferentes durante uma semana, mas nada de fazer efeito. Após essa semana, fui encaminhado para fazer um Ressonância Magnética; Alguns dias se passaram e o resultado saiu, 2 tumores benignos, um de cada lado no nervo do acústico, caracterizando a Neurofibromatose tipo II. Aí começa toda a minha luta.

O médico que me diagnosticou com Surdez Súbita, dr. Helder, é nos dias atuais chefe de uma sessão importante do centrinho de Bauru; E com a indicação dele eu consegui ser encaminhado ao HCFMUSP (Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina de São Pulo). Lá estão os médicos especialistas com anos de experiência no assunto, sendo o melhor lugar para você que também sofre com surdez – ou é surdo de nascença – buscar ajuda médica.

Desde o dia que eu dei entrada no hospital, foram feitas uma série de exames, para que meu caso fosse estudado e então aplicada a melhor estratégia para a cirurgia. No dia 31 de Julho de 2017 eu fui chamado para fazer a cirurgia para a remoção do tumor maior que estava no lado esquerdo (Neurinoma do acústico), nesse mesmo dia eu fiz uma outra ressonância para garantir que estava tudo certo para a cirurgia no dia seguinte; Mas… surpresa, o médico me disse mais ou menos assim por volta da 1:30 da madrugada: ”Gabriel, tenho uma notícia ruim. O tumor que a gente ia operar amanhã cresceu, e a gente vai mudar a estratégia e a data da sua cirurgia”.
Tive alta no outro dia, fui acabado para casa. Muito depressivo e triste porém continuei seguindo;

Passado aproximadamente 2 meses, finalmente fui chamado para a cirurgia, ai então ”caiu a fixa” que eu iria ser operado, e eu estava mais ou menos assim: Meu Deus fui chamado para a cirurgia, vão abrir minha cabeça, cortar meu crânio e brincar de Grey´s Anatomy comigo! Puta merda, fud#$ muito!!!
E então eu fui para o hospital o mais devagar possível, queria aproveitar cada segundo do trajeto; Chegando no hospital minha família estava lá, e isso me acalmou um pouco, porém acabado o horário de visita eles foram embora.

Passei a noite em claro, com medo, pensando em desistir e chorando (creio que nunca chorei tanto em minha vida como naquela noite); Mas o pai do colega que dividia quarto comigo (abraço Fred!!) me acalmou e eu consegui dormir umas horinhas.
AMANHECEU, um enfermeiro (você mesmo Antonio!) me dá um sabonete especial e me manda tomar banho; Por fora eu estava tranquilo, mas minha cabeça estava assim: ”é só isso, não tem mais jeito, acabou, boa sorte”. Sério eu estava em pânico, quando a minha família chegou tudo se aclamou por alguns minutos, eu fiquei um tempo com meu avô (eu me inspiro na garra, dedicação e carinho que ele tem mesmo com todas as dificuldades do mundo), e pareceu que o tempo parou, mas não vamos nos afundar nesse momento, pois já estão escorrendo lágrimas aqui!
Finalmente fui chamado para o centro cirúrgico; enquanto me preparavam eu estava mais calmo, conversei brevemente com alguns médicos e enfermeiros, que participaram da cirurgia. Quando colocaram o acesso na minha mão, eu cantei, em voz alta, ”Tempo Perdido de Legião Urbana” (por coincidência ou não, foi a ultima música que ouvi). Então eles me colocaram na anestesia e eu apaguei…
14 horas depois acordei desnorteado, no leito da UTI, me debatendo tanto que tiveram que me amarrar por algum tempo kkkk.
Enfim, fiquei 6 dias lutando naquele leito; Eu tive uma complicação e tiveram que colocar uma sonda alimentar para que eu pudesse me nutrir. Eu tossia bastante, saia muito catarro e ouve algumas ocasiões (umas 5 mais ou menos) que eu não consegui respirar, e foi necessário realizar um procedimento que se chama ”aspiração de secreção” (é um tubo fino que é colocado pela boca e nariz até a garganta para eliminar qualquer secreção e melhorar a respiração).

Foi nesse dia que eu sai da UTI

Depois desses 6 dias finalmente me estabilizei e fui transferido para o quarto; Não pense que foi fácil, teve noites que eu cheguei a tossir sangue. Porém, toda a dor que eu senti, foi a dor da vitória de uma batalha!

Após mais 5 dias no quarto recebi alta, já me alimentando, mesmo com dificuldades, (aqui eu tenho que fazer um adendo a uma pessoa de extrema importância nessa etapa. Vanessa, se não fosse por você eu teria saído de sonda daquele hospital, se não fosse por você minha recuperação teria sido MUITO mais difícil, sou eternamente grato pela a sua ajuda. Te amo), eu fui sem sonda para casa; A recuperação foi um pouco lenta pois minha ”garganta” ainda estava se acostumando com o alimento que eu ingeria. Fora isso eu tive de sequela a paralisia facial (só do lado esquerdo), a minha glândula lacrimal do olho esquerdo mal funciona, a disfagia (dificuldade para se alimentar) melhorou após 10 meses mais ou menos, e a disfonia (voz rouca e fraca) eu tenho até hoje.

Hoje, eu conseguir andar na rua e tomar uma garrafa d’água sem engasgar é uma vitória para mim. Em quase 1 mês no hospital eu sonhava com isso todos os segundos.

Minha próxima cirurgia vai ser para tirar o neurinoma (tumor) do lado direito, medindo aproximadamente 2.5 cm. A tendência é que a cirurgia seja mais tranquila (mas isso não significa que vai ser simples e com baixos riscos). Para a minha voz, eu vou fazer outra cirurgia pra que a prega vocal que está paralisada volte a funcionar. A neurofibromatose tipo II, infelizmente é uma doença agressiva que não tem cura, mas com o tratamento e acompanhamento pode-se viver por anos de forma normal.

A guerra que travamos diariamente é com a gente mesmo. O mundo externo e somente audiência. Não importa como você está, o importante é, o que você é. Sem barreiras, sem desculpas e sempre para frente” – Rogério Vedovato

(Atualizado dia 6 de Agosto de 2018)

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